" Não há meia mentira, tampouco meia verdade e nem meia liberdade, pois não pode ser cortada, quem acha o rumo da aguada, não morre de sede a míngua, e quem fala meia língua, termina dizendo nada!" (Jayme Caetano Braun)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A América é e sempre será para os guapos...

No início da tarde de hoje, morre C.R.T Guapo, o cavalo de 5 milhões, símbolo da raça Crioula.
Mas a dor não se trata de cifras, a dor se trata de algo muito mais valioso, algo que vale tudo, algo que não vale nada, algo que se sente, se trata de felicidade, sim isso mesmo que foi lido, felicidade, tantas felicidades que este cavalo trouxe, tantos sentimentos que ele provocou, orgulho certamente é um deles. Trouxe felicidade para a raça, para seus donos, e para os apaixonados por cavalo. E estes, os apaixonados por cavalo, certamente sabem que um cavalo não é só um animal que pode ou não nos gerar lucro, ele é um amigo, ele é o sentimento puro, ele pode nos curar de algo que ele sequer entende, ele representa sinceridade, ele nos entende por toque, por cheiro, por coisas que humanos talvez nem entendam.
Com Guapo, isso não é diferente, além de um grande e excelente reprodutor e exemplar da raça Crioula, além de um revolucionário no mercado da raça, hoje quem teve o privilégio de montá-lo, conhece-lo, ter algum momento com este cavalo, perde também um amigo, pode ter sido um minuto, uma hora, mas cavalo é bicho mágico, sendo assim, se perde um cúmplice de um momento, de tempo largo, tempo curto, isso não importa, mas tempo, um cúmplice de um momento que se pode viver com qualquer cavalo, mas que com todos que se vive, não se esquece. Desta forma, expresso meus pêsames, e meu agradecimento a este grande cavalo, e observem o céu hoje a noite, pois a lua tordilha estará um pouco mais colorada, num eclipse de pai e filho.

Anna Júlia K. Martins




A América é para os guapos desde sempre foi assim
De Tiarajú a San Martin, índios, gaudérios, farrapos
Que na cor de um velho trapo ou no atavismo terrunho
Souberam dar testemunho que a américa é para os guapos
O mais guapo dos cavalos a história o identifique
Melhor exemplar da FICCC já podem considerá-lo
A mim me toca saudá-lo nesta milonga pampeana
Que é da terra americana o mais guapo dos cavalos
Toda a américa assistiu meu país chegar montado
No guapo mais afamado que por aqui já surgiu
Tanto orgulho varonil encheu meu peito deserto
Ao ver o alemão Gilberto com a bandeira do Brasil
O Guapo é filho de hornero vem dessa estirpe lendária
Na Viragro Agropecuária segue povoando os potreiros
Por isso é que o pago inteiro diz pra quem quer escutá-lo
O mais guapo dos cavalos tem que ser filho de Hornero
A américa é para os guapos nesta milonga eu sustento
Abriendo mi Poncho al Viento meu coração eu destapo
Índios, gaudérios, farrapos, sua prole segue em seus trilhos
Pois sabem desde potrilho que a américa é para os guapos!

Rodrigo Bauer / Joca Martins

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Pra quem não viu ainda

Então, pra quem não viu ainda, aí adiante vão dois vídeos de duas músicas minhas...
A primeira é Dias de cor, uma parceria com a Inaê Dutra, a letra é dela, a música minha...

Dias de cor


A chuva veio pra esfriar a cabeça
E acalmar o coração angustiado
Do medo de um suspeito amor já acabado

Enquanto o certeiro está cansado, ferido
Tomando decisões difíceis
Procurando um seguro abrigo

Minha visão já embaçada pela dúvida
E a resposta a enxuga
Segundos futuros serão melhores
Vindo como uma amiga ajuda

De longe acabo nem vendo meu temor desabar
Não vejo medo, amor

Eis a questão para acabar

Conheço bem essa história, quis aproveitar
Mas já sábia sobre seu fim

Só não sabia que seu término caberia a mim

Velhas esperanças foram apostadas inocentemente
Talvez pela boba ideia de que seria diferente
Mas como de forma inédita começou
Espero que termine esse doloroso pseudo-amor





A segunda é uma música que surgiu de uma aposta, entre mim e a Inaê também, quem perdesse tinha que fazer uma música em homenagem a outra, eu perdi e cumpri hehehe

Contraste


É, eu sei que começou de um jeito estranho
Até porque é tudo diferente
Isso até podia ter virado briga

Mas virou música

Se juntou o all star com a boina
A guitarra com o violão

E resultou no contraste
Da gauchinha com a rockeirinha
E resultou no contraste
Da pelotense com a riograndina





Feito.... heheh é isso, abraço e até mais !

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Mais uma canção

Bom gente, nesse último final de semana eu fiz uma musiquinha, a seguir vai a letra e um vídeo meu cantando ela...

Mais uma canção

É… tentei fazer uma canção de amor
Só que acontece que não encontrei
Palavras certas para tanto ardor
E o que eu sinto, explicar não sei..

Talvez, falar de amor seja mesmo assim
Que a gente não consegue se expressar
E pode ser por ele não ter fim
Ou por simplesmente não se limitar..

Sim, essa só é mais uma canção
Mas ela serve para lhe mostrar
O que há dentro do meu coração
E o quanto é grande o tal do verbo amar..

Então, vou terminando essa canção ao léu
Espero que dê para entender
Que o meu sentimento é maior que o papel
E o que resume é que eu amo você.


Abraço e até o próximo post !

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Felicidade

Você é feliz ? Você já esteve feliz ?

Então... no meu ver felicidade é um sentimento simples e complexo ao mesmo tempo, vivemos buscando a tal da felicidade, e sempre ligando ela à coisas materiais, ideais, objetivos, acontecimentos, mas será que é mesmo assim ?
Veremos, você já sentiu vontade de gritar alto que estava feliz ? Já ficou rindo sem motivo, extremamente bem sem motivo, querendo fazer o bem, aproveitando toda simplicidade de uma coisa normal ? E se nesse momento te perguntassem se você está feliz, a resposta sem pestanejar seria sim, por quê ? Exatamente isso, não tem porquê, a felicidade não tem motivo, não tem que ter motivo para se estar feliz...
E se quer motivos é só olhar o mundo a volta...olha a grandeza do céu, repare na complexibilidade das coisas, repare na perfeição de tudo que está na nossa volta, e perceba que reclamar de tudo isso é bobagem, e que preconceitos, conflitos, e outras "frescuras" são inúteis e são um nada diante de tanta grandeza e perfeição...
Se ainda não compreendeu, pense que tudo o que está na nossa volta é formado por átomos, e que existem particulas de ar dentro delas, e que esses átomos que formam tudo, nós somos incapazes de enxergar. Pense também no corpo humano, somos formados por células, que nós também não enxergamos, e dentro de cada célula há estruturas muito complexas, que estão trabalhando neste exato momento, e que enquanto você está lendo isso, seu sistema respiratório está trabalhando com toda sua complexibilidade em apenas segundos. E a música ? O que é a grandeza, a beleza e a magia da música... Como que inventaram tantos intrumentos e inventaram as notas ? Como que decobriram que tal posição em tal instrumento fazia a nota Dó ? Pois é, já dizia a frase : só sei que nada sei. E reflita sobre tudo mais que nós consideramos simples... será que realmente são simples ? Veja como tudo é perfeito, complexo, bonito... Pense se realmente temos que estar sempre reclamando de tudo, seja você mesmo, não busque motivos, só seja feliz, porque para ser feliz não são necessários motivos.

 Abraço e até o próximo post !

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Olhos Teus

Da série "Diário de uma futura pata" .. hehe

Bom, há umas duas semanas atrás, nasceu minha primeira parceria musical, com o meu colega Jarbas Xavier, ele me chamou e perguntou o que eu achava se ele fizesse uma letra, disse que achava legal, então ele fez, pediu algumas dicas para mim, e me deu para musicar...
Chegando em casa não estava com muita inspiração, pedi uma ajuda para o pai, Joca Martins, e a primeira parte foi feita, mas faltava o refrão... Na manhã seguinte, eu e o Jarbas fomos ao C.T.G Rancho Grande, pela manhã, e tomando mate com o violão em mãos, fiz o refrão e terminei a música...

Aí adiante vai a letra, depois pretendemos gravar ela, aí então vocês poderão conhecer o conjunto completo..


Olhos Teus

Entardecer de inverno, eu tão perto e tão distante do teu beijo
Na beira do fogo, sentindo o calor dos meus sonhos
Enquanto cevava mais um mate de agonia
Nas brasas estava escrito teu nome

E eu aqui pensando nas promessas que eu não cumpri
Quando fugi do teu amor, á procura das minhas ilusões
Te deixei me esperando na porteira da solidão
Saí atrás de uma vida que eu nunca tive

Agora fico aqui pensando no carinho que eu poderia ter, em teus braços
Eu sei que um dia irei voltar para o meu lugar, ao teu lado
Quando a vida permitir, irei voltar...
De novo para a mira dos olhos teus

                                         Jarbas Dias Xavier


Abraço e até mais !!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Inverno se aprochegando...










É gauchada, o inverno ta chegando, coisa bem boa.. tem estação mais gaúcha que o inverno ? Não né..
Vai aí uma música do Leonel Gomez que descreve bem isso...



Temporona Mañanera


"Fumaceia a boca da estufa
E remolimos no angico
Pinga a graxa do granito
Pra churrasquear a peonada
La maula,que madrugada
Se plantou por esses campos
E um suavezito vento manso
Vem levantando uma geada"


Um poncho de gola parda
Se descansa sobre os ombros
E os recaus se vão sentando
Nos lombos de pelo grosso
Manhã fria de céu osco
Nem o sol teve a coragem
De madrugar com esta aragem
Semblante jeito de agosto


Tem ganas de ser garoa
Essa manhã que chegou fria
A indiada ajeita a encilha
E pros arreios já alcança
Um laço de boa trança
De cinchar rês atolada
Pra aliviar duma coreada
Por vaqueano, um peão de estância


Manhazita fria de maio
Trouxe uma geada temporona
Com serviço pra cambona

Recostada ao transfogueiro
Chegou o inverno mais cedo
E um pelego preto estaqueado
Amanheceu atobianado
Lá debaixo do arvoredo


Neste garrão de Rio Grande
Passo um inverno atrás do outro
Sovando garras e potros
No largo das sesmarias
Nos galpões brasa e astilhas
Retovos de madrugada
E um mate de erva lavada
Pras manhãs de geada e encilha


                                          

domingo, 24 de abril de 2011

Galpão Nativo




Meu velho galpão de estância
da pampa verde-amarela
que ficou de sentinela
da história da nossa infância,
és um marco na distância
da velha capitania
porque foste a sacristia
do batismo do gaúcho
quando moldou-se o debuxo
da Pátria que amanhecia.

Quinchado de santa-fé
oito esteios, pau-a-pique,
até parece um cacique
todo emplumado de pé,
o legendário Sepé,
legítimo rei no trono,
que desde o primeiro entono
trazia Pátria nos tentos,
anunciando aos quatro ventos
que esta terra tinha dono.

Velho bivaque nativo
encravado na coxilha.
Palanque de corunilha
do Rio Grande primitivo,
altar do fogo votivo,
que um dia o guasca acendeu
e aceso permaneceu
bordado de picumãs,
anunciando aos amanhãs
que o gaúcho não morreu.

Não existe nada igual
em qualquer parte do mundo,
como o vínculo profundo
do galpão tradicional
e esse galpão ancestral
que acalenta e arrebata,
nessa velha casamata,
onde o guasca viu a luz,
galpão que a história traduz
como oficina de Pátria.

Foi aqui que se fundiram
aqueles velhos modelos
que serviram de sinuelos
da Pátria que constituíram,
da Pátria que construíram
e a isso se propuseram
e nunca se detiveram,
porque nunca se detinham,
p'ra perguntar de onde vinham,

nem
tão pouco quantos eram.


Foi aqui que descansaram,
depois da lides guerreiras,
os centauros das fronteiras
que irmaneados - chimarrearam
e foi daqui que marcharam,
os andejos e gaudérios,
negros e mulatos sérios
e tapejaras errantes,
gaúchos e bandeirantes,
rasgadores de hemisférios.

O grande poeta Balbino
Marques da Rocha escreveu:
"que o rio-grandense cresceu
dono do próprio destino,
peleando desde menino
criado longe do pai
e é ele que um dia vai
de boleadeira e de vincha
e traz o Brasil na cincha
p'ras barrancas do Uruguai".

Esse é o galpão que cultuamos
esse é o galpão que queremos,
é esse o galpão que erguemos
e o galpão que conservamos,
como dizia Ruy Ramos,
velho tribuno imponente,
um pedaço de presente
e um pedaço de passado
e futuro enraizado
no subsolo da gente.

Essa a legenda -essa a história,
essa a história - essa a legenda
dessa rústica vivenda,
da luta demarcatória,
da luta emancipatória,
da velha pátria comum,
não há preconceito algum
no velho galpão campeiro,
ao pé de cujo braseiro
sempre há lugar p'ra mais um.

Tribunal e refeitório
de maulas e milicianos,
de charruas e paisanos
sem Pátria nem território
hoje és galpão - repertório
daquelas charlas fraternas
e das lembranças eternas
das saudades que ficaram,
dos centauros que matearam
nos teus cepos de três pernas.

Porém te testa um encargo,
velho galpão ancestral,
legendária catedral
de Pátria de de pampa largo,
no ritual do mate-amargo
ainda existe sevadura.
És um templo na planura,
de paz, amor e carinho,
p'ra iluminar o caminho
da grande Pátria futura.

Se não houver campo aberto
lá em cima, quando eu me for,
um galpão acolhedor,
de santa-fé, bem coberto,
um pingo pastando perto,
só de pensar me comovo,
eu juro, pelo meu povo,
nem todo o céu me segura,
retorno a velha planura
pra ser gaúcho... de novo ! 


                               Jayme Caetano Braun

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Diário de uma futura pata

Eai gente... hoje o dia foi bem bom, último dia de aula da semana, coisa boa.. os dois últimos períodos da manhã não teve, que moleza, fiquei no rancho tomando mate lá com foguinho.. haha
O engraçado mesmo fomos nós pegando o busão... tocando violão e cantando de pé.. que folclore ! haha
Mas então, acho que hoje o que mais marcou foi isso do ônibus mesmo, vou ir contando assim, no final do ano vai ter lotes ! hahahaha

Abração e até mais !

terça-feira, 12 de abril de 2011

"Diário de uma futura pata"

Então gente, eu como ando passando os dias inteiros no colégio não tenho nem tempo pra ter muitas ideias pra postar aqui, resolvi que vou fazer o "Diário de uma futura pata" , que seriam as coisas que acontecem no meu dia a dia lá no CAVG, vou continuar postando outras coisas, mas vai ter essa minha ideia aí..
Pra quem não sabe, lá no CAVG se divide assim : 1° ano - bixo (eu hehehe) | 2° ano - veterano | 3° ano - pato | Por isso o nome, então escreverei durante meus 3 anos (esperamos que sejam 3 né hehehe) de ensino médio !
Hoje eu não tenho muito o que contar, não teve façanha nenhuma, o dia foi bem cansativo... levei o violão fizemos bastante barulho e eu quase dormi na aula de zootecnia... hehhehehe mas com certeza sempre vão ter muitas novidades aqui !

 
Fazendo uns barulho atrás do Rancho...


 Abraço e até mais !

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Quanto tempo !

Gauchada, quanto tempo eu não vinha aqui !! Eu não tenho um assunto específico pra essa postagem na verdade hehe Começaram minhas aulas dia 21 de março e estou só na correria, CAVG aula o dia inteiro né, mas estou gostando muito das aulas, o ambiente é maravilhoso, não tem outro colégio que se possa viver isso !
 Meu pai me mostrou um blog e eu estava vendo ele agora a pouco até, eu queria indicar : www.cavalocrioulook.blogspot.com ! Pra quem gosta de cavalo é de muita serventia, muito interessante MESMO !

Bom, e pra distração de vocês achei um videozinho que gravei nas férias, eu cantando em ingreis ! haha
É só pra se divertir mesmo, porque no inicio passa um caminhão, eu não sei toda letra, erro umas partes do inglês, sem falar que as partes do Jason Mraz são graves pra mim ! hahahaha botei defeito em tudo né, mas se quiserem vejam ! É a música Lucky - Jason Mraz e Colbie Caillat !

video

Até breve eu espero ! Abração !

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

J. Simões Lopes Neto !

Opa gauchada ! Mais um causo ajeitado pra vocês...


                                                       No Manantial


Está vendo aquele umbu, lá embaixo, à direita do coxilhão?
Pois ali é a tapera do Mariano. Nunca vi pêssegos mais bonitos que os que amadurecem naquele abandono; ainda hoje os marmeleiros carregam, que é uma temeridade!
Mais para baixo, como umas três quadras, há uns olhos-d’água, minando as pedras, e logo adiante uns coqueiros; depois pega um cordão de araçazeiros.
Diziam os antigos que ali encostado havia um lagoão mui fundo onde até jacaré se criava.
Eu, desde guri conheci o lagoão já tapado pelos capins, mas o lugar sempre respeitado como um tremedal perigoso: até contavam de um mascate que aí atolou-se e sumiu-se com duas mulas cargueiras e canastras e tudo...
Mais de uma rês magra ajudei a tirar de lá; iam à grama verde e atolavam-se logo, até a papada.
Só cruzam ali por cima as perdizes e algum cusco leviano.
Com certeza que as raízes do pasto e dos aguapés foram trançando uma enrediça fechada, e o barro e as folhas mortas foram-se amontoando e, pouco a pouco, capeando, fazendo a tampa do sumidouro.
E depois nunca deram desgoto na ponta do lagoão, porque, se dessem, a água corria e não se formaria o mundéu…
Mas, onde quero chegar: vou mostrar-lhe, lá, bem no meio do manantial, uma cousa que vancê nunca pensou ver; é uma roseira, e sempre carregada de rosas...
Gente vivente não apanha as flores porque quem plantou a roseira foi um defunto... e era até agouro um cristão enfeitar-se com uma rosa daquelas!...
Mas, mesmo ninguém poderia lá chegar; o manantial defende a roseira baguala: mal um firma o pé na beirada, tudo aquilo treme e bufa e borbulha...
Uns carreteiros que acamparam na tapera do Mariano contaram que pela volta da meia-noite viram sobre o manantial duas almas, uma, vestida de branco, outra, de mais escuro.., e ouviram uma voz que chorava um choro mui suspirado e outra que soltava barbaridades...
Mas como era longe e eles estavam de cabelos em pé...  pois nem os cachorros acuavam, só uivavam... uivavam...  não puderam dar uma relação mais clara do caso.
E o lugar ficou mal-assombrado.
Mas, onde quero chegar: foi assim, como lhe vou contar. Estes campos eram meio sem dono, era uma pampa aberta, sem estrada nem divisa; apenas os trilhos do gado cruzando-se entre aguadas e querências.
A gadaria, não se pode dizer que era alçada: quase toda orelhana, isso sim,
Mas vivia-se bem, carne gorda sobrava, e potrada linda isso era ao cair do laço.
O Mariano apareceu aqui, diz que vindo de Cima da Sena, corrido dos bugres; uns, porque lhe morrera a mulher da bexiga preta, outros ainda, à boca pequena, que não era por santo que ele mudara de cancha.
Mas fosse como fosse, chegou e arranchou-se.
Trazia para o brigadeiro Machado uma carta que devia ser de gente pesada, porque o brigadeiro tratou-o muito bem e decerto foi com o seu consentimento que ele aboletou-se aqui nos pagos.
Tocava uma carreta de tolda, uma ponta de gado manso e uma quadrilha de ruanos.
De gente, ele, duas velhuscas, uma menina, uns pretos, campeiros e uma negra mina, chamada mãe Tanásia.
A menina era filha dele; das velhas uma era a avó da criança, e a outra, irmã dessa, vinha a ser tia-avó. Ele dava-se por genro da velha, mas não era: havia suspendido com a moça da casa, e depois nunca se proporcionou ocasião de padre para fazer-se o casamento, e o tempo foi passando até que a defunta morreu, ficando a inocente nesse paganismo de não ser filha de casal legítimo... por sacramento. Mas davam-se bem, todos.
O paisano era trabalhador e entendido nas cousas; desde o torrão para os ranchos, e quinchar, madeiras, cercados, lavouras, tudo passou pelas suas mãos. E tanto falquejava um linhote como semeava uma quarta de trigo, e já capava um touro como amanonsiava um bagual.
Quando Maria Altina,era a menina, a filha dele  andava nos dezesseis anos, este arranchamento era um paraíso: o arvoredo todo crescido e dando; lavouras, criação miúda, de tudo era uma fartura; havia galpões, eira, currais, tafona.
O Mariano e as duas velhas traziam nas palminhas a pequena. Ela era o "ai-jesus!" de todos, até dos negros.
Duma feita que a família foi ao povo, para um terço de muita fama que se rezou na casa do brigadeiro Machado, a Maria Altina fez um fachadão entre a moçada; mas de todos ela tomou-se de camote com um tal André, que era furriel e gauchito teso. Não entro nisto mais pelo miúdo porque não vale a pena de falar nestes chicos pleitos de namoriscos e milongagens de crianças.
Mas segue-se é que na despedida da volta o furriel André deu-lhe uma rosa colorada, com um pé de palmo.... e ela atravessou a flor no seu chapéu de palha, ali no mais, com toda a inocência, à vista de todos.
Cá pra mim havia algum conchavo entre o brigadeiro e o Mariano, porque naquele soflagrante da flor os dois piscaram os olhos um para o outro e riram-se à sorrelfa por debaixo do bigode.
Ah!... o furriel era afilhado e ordenança do galão-largo... e até diziam mais alguma cousa… Vancê entende!...
A comitiva nessa noite pousou no caminho, e a menina deu jeito e arrumou a rosa numa botija com água, para não murchar.
De manhãzita, marcharam; e de chegada em casa, o primeiro cuidado da pécora foi cortar a rosa bem rente do cachimbo e plantar o galho numa terra peneirada e fresquinha.
E tais cuidados deu-lhe que a planta pegou, botando raízes firmes e espigando ramos e folhas; e quando vieram os primeiros botões, ela apanhou-os, fez um ramo todo cheiroso, amarrou-o com a fita dos cabelos e foi prendê-lo no pé da cruz dum Nosso Senhor que estava na frente do oratório.., como quem dá uma prenda, a modo de pagamento de promessa feita!...
Nesse entrementes  cousa arranjada pelo brigadeiro, o furriel pousou em casa do Mariano, de passagem para um destacamento onde ia levar ofícios. Foi um alegrão para todos, mas para a Maria Altina, nem se fala!...
Vancê pense... A paisaninha só teve alma e vida e coração para o moço... ele também estava entregue, de rédea no chão.
Aquela visita trazia água no bico... era o trato de casamento.
Depois que o furriel se foi as velhas pegaram a fazer rendas de bilro e outros preparos do aprontamento da noiva.
A roseira estava em todo o viço: recendia que era um gosto e bordava de vermelho o caniçado da horta, que se via desde longe.
Mas, perto da pomba andava rondando o gavião.
Na Restinguinha, obra de um quarto de légua pra lá do Mariano, morava um tal Chico Triste, que tinha filhos como rato, e o mais velho era já homem feito.
Este, que pro caso chamava-se Chicão, andava mui enrabichado pela Maria Altina.
Ele era um bruto, que só olhava, só queria a Maria Altina de carne e osso  . Do mais não se lhe dava; não queria saber se a menina era vergonhosa, ou trabalhadeira ou prendada.
Ele só olhava-me para as ancas, e os seios, e para a grossura dos braços; era,  mal comparando , como um pastor no faro de uma guincha.. -
A rapariga tinha-lhe quase tanto medo como raiva. Uma vez ele pediu-lhe uma muda da roseira, e ela, sem negar, para não fazer desfeita, disse-lhe que tirasse o que quisesse.
- Mas eu quero é dada pela senhora!...
- Ah! não!…: Tire o senhor mesmo, a seu gosto...
- Não dá?... pois qualquer dia pico a facão toda essa porcaria!...
E levantou-se e saiu, todo apotrado.
Outras vezes trazia-lhe de presente ovos de perdiz. ou ninhadas de mulitas, que ela criava com paciência e logo que podiam manter-se, largava para o campo. Uma ocasião trouxe-lhe um veadinho; ela soltou-o; uns gatos viscachas, soltou-os também.
O Chicão que não via nunca os seus presentes, soube do caso, e, por despique, apanhou uns quantos filhotes de avestruz, e a tirões arrancou-lhes  ainda vivos, criatura! as pernas e as asas, e assim arrebentados e estrebuchando, mandou-os à Maria Altina;... a pobre desatou num pranto de choro, ao ver a malvadez daquele judeu...
Assim estavam as cousas quando o furriel passou e logo depois correu a nova do casamento.
O Chicão espumou de raiva... Levava os cavalos a sofrenaços, os cachorros a arreador, os irmãos a manotaços e até a mãe, com respostas duras.
Só respeitava o pai, o velho Chico, e assim mesmo porque este tinha marca na paleta, mas não era tambeiro...
No dia , véspera da barbaridade, houve na casa do Chico Triste um batizado feito por um padre missioneiro que ia de caminho; a gente do Mariano foi convidada. Nessa noite comeram doces, tocaram viola, cantaram e até dançaram uma tirana e o anu.
Aí o Chicão cargoseou muito a Maria Altina.
A jantarola e o resto do festo iam ser no dia seguinte , que foi o do caso.
Vancê acredita?... Nesta manhã, desde cedo, os pica-paus choraram muito nas tronqueiras do curral e nos palanques... e até furando no oitão da casa;... mais de um cachorro cavoucou o chão, embaixo das carretas;… e a Maria Altina achou no quarto, entre a parede e a cabeceira da cama, uma borboleta preta, das grandes, que ninguém tinha visto entrar...
Sol nado o Mariano e uma das velhas foram para o riste, para dar um ajutório. Os campeiros, como de costume, para os seus serviços, uns de campo, outros lenhar.
Na casa só ficaram, para irem mais tarde, a Maria Altina e a outra velha, que era a avó; e para as duas, debaixo do umbu, dois mansarrões encilhados.
Ficou também a negra mina, que viu tudo e foi quem fez o conto.
A avó estava na cozinha frigindo uns beijus e a Maria Altina na varanda, apenas em saia, arrematava um timãozinho novo.
Na cabeça, como gostava, trazia uma rosa fresca, e que ficava-lhe sempre a preceito no negrume da cabeleira. E garganteava umas coplas que tinha aprendido na véspera, quando dançava a tirana e se divertia. Umas coplas que eram assim… e me lembro, porque quem as botou  para uma outra  foi mesmo este seu criado Matias!...

Quem canta pra tu ouvires
Devia morrer cantando...
Pois quando daqui saíres,
Do cantor vais te olvidando;
E, pode ser que morrendo,
Dele então tu te lembrasses:
Se visses outro defunto,
Ou se outra vez tu dançasses,
Minha voz no teu ouvido, 
Soluçaria de dor,
Não por deixar a vida...




E nem acabou o verso, porque estourou na cozinha um esconjuro e logo a voz da avó, sumida e arroucada, gritando : bandido! bandido! e depois um gemido ansiado, uns ais… e um baque surdo...
De pé, com o timãozinho numa mão e a agulha na outra, pálida como a cal da parede, o coração parado, Maria Altina pregada no chão, de puro medo, ouviu... ouviu…, e aí no mais entrou e veio a ela o Chicão..., o Chicão, entende vancê?  com uns olhos de bicho acuado, e um bafo de fogo, na boca...
E como chegou, atropelou-a, agarrou-a, apertou-a, abraçando-a pela cintura, metendo a perna entre as dela, forcejando por derrubá-la, respirando duro, furioso, desembestado... mais mordendo que beijando o pescoço amorenado... e garboso...
A rapariga gritou, empurrando-o num desespero, arranhando-lhe a cara, ladeando o corpo... por fim atacou-lhe os dentes num braço.
Ele urrou com a dor e largou-a um momento; ela aproveitou o alce e disparou..., ele quis pegá-la de novo, mas no mover-se enredou as esporas no timãozinho que caíra, e testavilhou maneado…
A pobre, ao passar pela cozinha viu a avó estendida, com as roupas enrodilhadas, a cabeça branca numa sangueira... e então desatinada, num pavor, correu para o umbu e foi o quanto pulou a cavalo e já tocou, a toda, coxilha abaixo!...
Mas, logo, logo, mesmo sem se voltar, sentiu-se quase alcançada pelo Chicão, que também montara e se lhe vinha em perseguição...
E os dois,  à que te pego! à que te largo!  se despencaram por aquele lançante, em direitura ao manantial! E, ou por querer atalhar, ou porque perdesse a cabeça ou nem se lembrasse do perigo, a Maria Altina encostou o rebenque no matungo, que, do lance que trazia costa abaixo, se foi, feito, ao tremendal, onde se afundou até as orelhas e começou a patalear, num desespero!…
A campeirinha varejada no arranco, sumiu-se logo na fervura preta do lodaçal remexido a patadas!... E como rastro, ficou em cima, boiando, a rosa do penteado.
E da mesma carreira, o cavalo do Chicão, que também vinha tocado à espora e relho, cbapulhou no pantanal, um pouco atrás do outro, cousa de braça e meia... e ali ficou, o corpo todo sumido, procurando agüentar as ventas, as orelhas fora da água.
O Chicão, agora deslombando-se em esforços para sair da enrascada, não podia, porque bem sentia as esporas enleadas nas raízes  e os cabrestilhos eram fortes….  e parecia-lhe que tinha um pé quebrado por uma patada do cavalo, que se despedaçava aos arrancos, sentindo-se chupado para o fundo...
Depois desse estropício, tudo ficou como estava: tudo no sossego, o sol subindo sempre, nuvens brancas correndo no céu, passarinhos cruzando para um lado e outro… os galos cantando lá em cima… uns latidos, muito longe… pios de perdiz… algum inhé de sapo ali perto…
Parecia que nada se havia dado: se não fosse a rosa colorada boiando, lá, e o Chicão atolado até o peito, mais pra cá.
O cavalo dele, com a cabeça alinhada, mal podia agüentar fora da água o focinho e ressolhava, o pobre, puxando a respiração em assobios grossos, e o dono, todo salpicado de barro, suava em cordas, cada vez mais ansiado, não podendo desprender-se das malditas esporas, que o sujeitavam em cima do bagual, que ia se afundando… afundando… afundando… E a cada sacudida feita naquele reduto todo o manantial bufava e borbulhava…
Com pouco mais o Chicão desceu ainda, atolado até os sovacos; o cavalo já se não via e nem bulia, sufocado e morto, pesando entregue no mole do tremedal…
E as esporas… as malditas esporas, nem nada!…
Obrigado pela postura em que estava, ele olhava para o buraco que tinha engolido a Maria Altina: sobre a água barrenta, escura, nadavam folhas secas, capins pisoteados, gravetos... e no meio deles, limpa e fresca, boiava a rosa que se soltara dos cabelos da cobiçada no momento em que ela entrava pela morte a dentro, dentro do lodaçal...
E o tempo foi passando, a tranqüito, sem pressa nem vagar.
Vancê lembra-se? ...
Como eu disse, havia ficado em casa, além das brancas, a tia mina, - a mãe Tanásia - que, quando sentiu a desgraceira, ganhou no paiol, escondendo-se e daí pode bombear alguma cousa. Quando viu as criaturas montarem e tocarem  como caça e caçador  a mãe Tanásia saiu da toca e voltou à cozinha, dando com a nhanhã… morta, e logo viu que a sinhazinha fugira. E pensou em ir ao Chico Triste, avisar o Mariano. O mais perto era ir pelos olhos-d’água, acima do manantial; desceu o caminho; costeou pelas pedras e quando dobrava a estradinha frenteou com o Chicão...
A mãe Tanásia ficou estatelada…, e daí a pedaço em que olhou só, sem pensar nada  foi que a coitada falou.
— Eh! eh!… siô moço!… que é que suncê fez!...
E o desalmado gritou-lhe:
Vai, bruaca velha, vai contar!...
— Ah! ah!... Deus perdoe!...
E foi andando, estradinha afora, lomba acima, apurando o passo, um pouco renga.
Nesse meio tempo também chegavam à casa os campeiros; era hora de comer; repararam que só estava amarrado um cavalo; a casa aberta, silenciosa; um espiou pela janela da cozinha…, e gritou pelos outros, benzendo-se...
Lá estava a senhora, com a cabeça arrebentada a olho de machado…, O fogo apagado, a banha coalhada, os beijus frios…, e mui a seu gosto, de papo para o ar, dormindo na saia da morta, uma gata brasina e a sua ninhada.
Chamaram pela mãe Tanásia... gritaram.... procuraram... e nada! Um deles, mais alarife, propôs que fugissem... que era melhor ser carambola do que ser estaqueado... que por certo iam acusá-los daquela maldade,
Porém outro mais precatado disse:
— Cala a boca, parceiro... Vamos é avisar sinhô velho...
E ficando uns de guarda, tocaram-se os outros, a meia rédea, para o Triste, onde, fulos de medo, desovaram a novidade,
Que canhonaço, amigo! A gentama toda se alvorotou ; o que era de mulheres abriu num alarido, o que era homem apresilhou as armas, e já se saiu, muitos de em pêlo, cobrindo a marca dos fletes, o Mariano na frente, como um louco.
Eu estava nessa arrancada. Chegamos como um pé-de-vento e conforme boleamos a perna, vimos o mesmo que os negros contavam. E da Maria Altina, nada; da mãe Tanásia, nada. Apenas no chão da varanda novelos desparramados, a mesa arredada, o timãozinho novo com um rasgão grande...
Nisto, um aspa-torta, gaúcho mui andado no mundo e mitrado, puxou-me pela manga da japona e disse-me entre dentes:
O Chicão repontava a rapariga;… ele não estava em casa, nem veio conosco; ela não está….. Patrício... que lhe parece?…
Hom!... respondi eu, e fiquei-me com aquele zunido de varejeira no ouvido...
Mas o paisano tinha o estômago frio e foi passando língua;... daí a pouco todos faziam as mesmas contas, até que um, mais golpeado, disse-o claro, ao Mariano!
O homem relanceou os olhos a ver talvez se descobria o Chicão... depois teve a modo uns engulhos e depois ficou como entecado...
Pensaria mesmo que a filha tinha fugido com o querendão?... Quem sabe lá!... Que o rapaz rondava, isso ele e todos sabiam e que ela não fazia caso do derretimento, isso também se sabia: agora, como dum momento para o outro os dois se tinham combinado, isso é que era!...
Mas ao mesmo tempo perguntava-se — quem matou a velha e por quê?...
E quando estávamos neste balanço ouvimos então a gritaria das mulheres, que tinham vindo de a pé, encontrando no caminho a mãe Tanásia.
Em antes de chegarem, já os cuscos, ponteiros, tinham começado a acuar, por debaixo dos araçazeiros; as crianças, curiosas e mais ligeiras, tinham corrido pensando ser algum bicho… e recuaram assustadas, fazendo cara-volta, umas chorando, outras sem fala, apenas apontando para o manantial...
E quando a ranchada das damas chegou perto e viuviu o Chicão atolado; o Chicão atolado, e logo adiante, no barro revolvido, a rosa cobrada boiando; a rosa boiando, porque a moça estava no fundo, afogada, porque... porque... por causa do Chicão?... por medo dele, que queria abusar dela?... quando as senhoras-donas, todas caladas, viram aquele condenado, e uma, mais animosa, gritou-lhe — cachorro desavergonhado! —foi que a mãe dele, jungindo as lágrimas para não saltarem, perguntou:
— Chicão, meu filho, que é isto?...
— Atolado…. as esporas;… um laço!...
— Filho!... que desgraça! E a Maria Altina?...
— Aí!… embaixo da rosa...
Foi neste ponto que rompeu o alarido, os choros, os chamados que ouvimos lá em cima, nas casas, e descemos logo. O Mariano vinha com os olhos raiados de sangue e batendo os dentes, como porco queixada...
E quando paramos todos e vimos o jeito daquele rufião maldito, ainda um lembrou, alto:
— Vamos laçar o homem, e puxar cá pra fora!...
O Mariano porém, gritou:
— Espera!... e voltando-se para o atolado, indagou:
— Por que mataste a velha?...
Não!
— Viste a Maria Altina?
— Não!
— Que esburacado é esse, aí na tua frente?
— Não sei!
— E aquela rosa... também não sabes?...
— Pois sei, sim! É dela... e a velha, também, fui eu... e agora?...
— Vou rebentar-te a cabeça...
— Arrebenta! Se não fosse as esporas!...
Então o Mariano sacou a pistola do cinto e trovejou... e errou! Secundou o tiro e a bala quebrou o ombro do Chicão, que deu um urro e estorceu-se todo; quis firmar-se, porém o braço são afundava-se no barro, acamando os capins já machucados; com esses tirões e arrancos o manantial todo tremia e bufava, borbulhando...
O Mariano amartilhou a outra pistola; o Chicão berrou de lá:
— Mata! Eu não pude!... mas o furriel também não há-de!...
Mas nisto a mãe dele abraçou-se nos joelhos do Mariano, e o padre missioneiro levantou a cruzinha do rosário, meteu o Nosso Senhor Crucificado na boca do cano da pistola... e o Mariano foi baixando o braço... baixando, e calado varejou a arma para o lameiro...; mas de repente, como um parelheiro largado de tronco, saltou pra diante e de vereda atirou-se no manantial... e meio de pé, meio de gatinhas, caindo, bracejando, afundando-se, surdindo, todo ele numa plasta de barro reluzente, alcançou o Chicão, e — por certo — firmando-se no corpo do cavalo morto, botou-se ao desgraçado, com as duas mãos escorrendo lodo apertou-lhe o gasganete… e foi calcando, espremendo, empurrando para trás…, para trás... até que num — vá! — aqueles abraçados escorregaram, cortou o ar uma perna, um pé do Chicão, — livre da espora — e tudo sumiu-se na fervura que gorgolejou logo por cima!...
Imagine vancê, aquilo passando-se ali pertinho a meio laço de distância e ninguém podendo remediar…
Houve só uma palavra em todas as bocas; Jesus, Senhor!...
O manantial borbulhava por todas as costuras... Se fosse água limpa... Credo!...
D’espacito... d’espacito... o missionário foi estendendo o braço, como esperando que as almas subissem... depois riscou uma cruz larga, na claridade do dia; e ajoelhando-se na beira daquela cova balofa, de três defuntos de razão de morrer tão diferente e de morte tão a mesma, começou a rezar.
E logo no derredor a gentama também se foi arrodilhando... e todos com os olhos firmados no manantial, e todos de mãos postas, todos empeçaram um — Salve-Rainha — que foi alteando e subindo no descampado, tão penaroso, tão sentido, tão do coração, que até parece que amansou os próprios bichos, porque, entrementes, nem um cachorro latiu, nem passarinho piou, nem cavalo se mexeu!...
Nas paradas da reza só se ouvia os soluços da mãe do Chicão e um leve guasqueio do vento nas talas dos jerivás.
Acabada a devoção e marchando como uma procissão, fomos para a casa levando a outra velhinha, a irmã da que lá estava, de cabeça esmigalhada. Velamos o corpo e na manhã seguinte fizemos-lhe o enterro, também lá embaixo, na costa do manantial.
O missioneiro benzeu, e então fincamos uma cruz morruda, de cambará, para vigia às almas dos quatro mortos.
Depois, cada qual tomou seu rumo.
Anos depois passei por aqui: cortava a alma olhar para o arranchamento. Os negros tinham tomado a alforria por sua mão, e se foram a la cria!... Ficaram as duas mulheres, a mãe Tanásia e a sua senhora velha, que, por caridade, o brigadeiro Machado mandou buscar pra casa dele.
O arranchamento ficou abandonado; e foi chovendo dentro; desabou um canto de parede; caiu uma porta, os cachorros gaudérios já dormiam lá dentro. Debaixo dos caibros havia ninhos de morcegos e no copiar pousavam as corujas; os ventos derrubaram os galpões, os andantes queimaram as cercas, o gado fez paradeiro na quinta. O arranchamento alegre e farto foi desaparecendo… o feitio da mão de gente foi-se gastando, tudo foi minguando; as carquejas e as embiras invadiram; o gravatá lastrou; só o umbu foi guapeando, mas abichornado, como viúvo que se deu bem em casado...; foi ficando tapera... a tapera... que é sempre um lugar tristonho onde parece que a gente vê gente que nunca viu… onde parece que até as árvores perguntam a quem chega: — onde está quem me plantou?... onde está quem me plantou?... —
Olhe! Veja vancê: ali embaixo... hem? ‘Stá vendo?... aqueles coqueiros, o matinho de araçás?
Pois é ali o manantial, que virou sepultura naquele dia brabo em que desde manhã tanto agouro apareceu, de desgraça: os pica-paus chorando... os cachorros cavoucando... a bruxa preta entrada sem ninguém ver...
Sempre dói na alma, mexer nestas lembranças. E há quem não acredite!...
A cruz… onde já foi!... mas a roseira baguala, lá está! Roseira que nasceu do talo da rosa que ficou boiando no lodaçal no dia daquele cardume de estropícios…
Vancê está vendo bem, agora?
Pois é... coloreando, sempre! Até parece que as raízes, lá no fundo do manantial, estão ainda bebendo sangue vivo no coração da Maria Altina...
Vancê quer, paramos um nadinha. Com isto damos um alcezito aos mancarrões, e eu... desaperto o coração!…
Ah! saudade!... Parece que ainda vejo a minha morena, quando no rancho do Chico Triste botei-me os versos... 

Minha voz no teu ouvido 
Fez seu ninho pra canta...  
 


— Diabo!... parece que tenho areia nos olhos... e um pé-de-amigo na goela... — Ah! saudade!... É uma amargura tão doce, patrãozinho!...

Saudade é dor que não dói,
Doce ventura cruel,
É talho que fecha em falso,
É veneno e sabe a mel... 


                                                                                                   J. Simões Lopes Neto

Espero que se agradem, forte abraço e até amanhã !

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

J. Simões Lopes Neto !

 Tô de voltaa pras casa ! Desculpem, mas lá era difícil de postar, mas agora voltou ao normal ! Espero que gostem desse, aí vai...


                                                            Batendo Orelha



Nasceu o potrilho, lindo e gordo, filho de égua boa leiteira, crioula de campo de lei.
O guri era mimoso, dormindo em cama limpa e comendo em mesa farta.
Já de sobreano fizeram uma recolhida grande, sentaram-lhe uns pealos, apertaram-no pelas orelhas e pela cola e a marca em brasa chiou-lhe na picanha.
Andaria nos oito anos quando meteram-lhe nas mãos a cartilha das letras e o mestre-régio começou a indicar-lhe as unhas, de palmatoadas.
O potrilho couceou, na marca. O menino meteu fios de cabelo nos olhos da santa-luzia...
Em potranco acompanhava a manada e retouçava com as potrancas, sem mal nenhum.
O rapazinho rezava o terço e brincava de esconder com as meninas… o que custou-lhe uma sapeca de vara de marmeleiro.
Quando o potrilho foi-se enfeitando para repontar, o pastor velho meteu-lhe os cascos e mais, a dente, botou-o campo fora: fosse rufiar lá longe!...
O gurizote, já taludo, quis passar-se de mais com uma prima...; o tio deu-lhe um chá-de-casca-de-vaca, que saiu cinza e fedeu a rato!...
O potro andava corrido, farejando... Mas nem uma petiça arrastadeira d’água e poronguda, achou, para consolo da vida. Té que o caparam.
O mocito, que era pimpão, foi mandado incorporar. Sentaram-lhe a farda no lombo.
Mal sarou da ferida o potro foi pegado: corcoveou, berrou; quebraram-lhe a boca a tirões, dividiram-lhe a barriga com a cincha; quis planchar-se, e lanharam-lhe as virilhas a rebenque e as paletas a roseta de espora. Tiraram-lhe as cócegas... Ficou redomão.
O recruta marcou passo, horas, pra aprender; entrou na forma; agüentou descomposturas; deu umas bofetadas num cabo e gurniu solitária e guarda dobrada, por quinze dias. Cortaram-lhe os cabelos à escovinha e ficou apontado. Era o faxineiro do esquadrão.
Houve uns apuros de precisão… O rocim foi vendido em lote, para o regimento.
Tocou a reunir: era uma ordem de marcha, urgente. O faxineiro recebeu lança, espadão e tercerola.
Quando a cavalhada chegou o primeiro serviço dos sargentos foi assinalar os novos; era simples e ligeiro: um talho de faca na orelha, rachando-a. Bagual assim, virava reiúno.
Quando tocou o bota-sela, o faxineiro estava na porteira, de buçal na mão, esperando a vez. O laçador laçava, chamava a praça e esta enfrenava... e cada um roia o osso que lhe tocava.
— Chê! Enfrena!...
Foi o reiúno que caiu pro recruta.
Aí se juntaram os dois parecidos, o bicho e o homem. E a sorte levou os dois, de parceria, pelo tempo adiante. Curtiram fome, juntos, cada um, do seu comer, E sede. E frio. E cansaço, mataduras e manqueiras; cheiros de pólvora e respingos de sangue, barulho de músicas, tronar grosso e pipoquear, nas guerrilhas.
E de saúde, assim, assim... Um teve sarnagem, o outro apanhou muquiranas; se um batia a mutuca, o outro caçava as pulgas.
Quando, no verão, o reiúno pelechava, também o faxineiro deixava de sofrer dores de dentes.
Passados anos o mancarrão já nem engordava mais, e todo ovado estava. O fiscal do regimento, sem uma palavra de — Deus te pague — mandou vendê-lo em leilão, como um cisco da estrebaria. Um carroceiro comprou-o, por patacão e meio, com as ferraduras.
Passados anos o praça aquele teve baixa, por incapaz, com o bofe em petição de miséria; e saiu da fileira sem mais família e sem saber oficio. Saiu com cinco patacas, de resto do soldo, e sem o capote. Foi então ser carregador de esquina.
O reiúno apanhava do carroceiro, como boi ladrão!
O carregador levava dos fregueses descompostura, de criar bicho!
O reiúno deu em empacar.
O carregador pegou a traguear.
O carroceiro um dia, furioso, meteu o cabo do relho entre as orelhas do empacador e... matou-o.
A policia uma noite prendeu o borrachão, que resistiu, entonado; apanhou estouros… e foi para o hospital, golfando sangue; e esticou o molambo.
O engraçado é que há gente que se julga muito superior aos reiúnos; e sabe lá quanto reiúno inveja a sorte da gente...
                  
                                                                                            J. Simões Lopes Neto

Forte abraço e até amanhã !!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

J. Simões Lopes Neto !

Buenas pessoal, decidi postar agora no final da manhã, porque depois do meio dia vou para Bombinhas, e não sei se vou conseguir acessar a internet, então vamos lá ! Na continuação da série de posts que vão ser de causos do Simões Lopes...

                                                   Os cabelos da china


— Vancê sabe que eu tive e me servi muito tempo dum buçalete e cabresto feitos de cabelo de mulher?…Verdade que fui inocente no caso.
Mais tarde soube que a dona dele morreu; soube, galopeei até onde ela estava sendo velada;
acompanhei o enterro... e quando botaram a defunta na cova, então atirei lá pra dentro aquelas peças, feitas do cabelo dela, cortado quando ela era moça e tafulona… Tirei um peso de cima do peito: entreguei à criatura o que Deus lhe tinha dado.
Eu conto como foi.
Quem me ensinou a courear uma égua, a preceito, estaquear o couro, cortar, lonquear, amaciar de mordaça, o quanto, quanto...; e depois tirar os tentos, desde os mais largos até os fininhos, como cerda de porco, e menos, quem me ensinou a trançar, foi um tal Juca Picumã, um chiru já madurázio, e que tinha mãos de anjo para trabalhos de guasqueiro, desde fazer um sovéu campeiro até o mais fino preparo para um recau de luxo, mestraço, que era, em armar qualquer roseta, bombas, botões e tranças de mil feitios.
Este índio Juca era homem de passar uma noite inteira comendo carne e mateando, contanto que estivesse acoc’rado em cima quase dos tições, curtindo-se na fumaça quente... Era até por causa desta catinga que chamavam-lhe — picumã.
Pra mais nada prestava; andava sempre esmolambado, com uns caraminguás mui tristes; e nem se lavava, o desgraçado, pois tinha cascão grosso no cogote.
Comia como um chimarrão, dormia como um lagarto; valente como quê... e ginete, então, nem se fala!...
Para montar, isso sim!…, fosse potro cru ou qualquer aporreado, caborteiro ou velhaco — o diabo, que fosse! —, ele enfrenava e bancava-se em cima, quieto como vancê ou eu, sentados num toco de pau!... Podia o bagual esconder a cabeça, berrar, despedaçar-se em corcovos, que o chiru velho batia o isqueiro e acendia o pito, como qualquer dona acende a candeia em cima da mesa! Às vezes o ventana era traiçoeiro e lá se vinha de lombo, boleando-se, ou acontecia planchar-se: o coronilha escorregava como um gato e mal que o sotreta batia a alcatra na terra ingrata, já lhe chovia entre as orelhas o rabo-de-tatu, que era uma temeridade!...
Voltear o caboclo, isto é que não!
E bastante dinheiro ganhava; mas sempre despilchado, pobre como rato de igreja.
Um dia perguntei-lhe o que é que este fazia das balastracas e bolivianos, e meias-doblas e até onças de ouro, que ganhava?...
Esteve muito tempo me olhando e depois respondeu, todo num prazer, como se tivesse um pedaço do céu encravado dentro do coração:
— Mando pra Rosa… tudo! E é pouco, ainda!
— Que Rosa é essa?
— É a minha filha! Linda como os amores! Mas não é pra o bico de qualquer lombo-sujo, como eu...
A conversa ficou por aí.
Passaram os anos. Eu já tinha o meu bigodinho.
Rebentou a guerra dos Farrapos; eu me apresentei, de minha vontade; e com quem vou topar, de companheiro? Com o Juca Picumã.
Duma feita andávamos tocados de perto pelos caramurus... Tínhamos saído em piquete de descoberta e aconteceu que depois de vararmos um passo, os legalistas nos cortaram a retirada e vieram nos apertando sobre outra força companheira, como para comer-nos entre duas queixadas...
E não nos davam alce; mal boleávamos a perna para churrasquear um pedaço de carne e já os bichos nos caíam em cima...
Na guerra a gente às vezes se vê nestas embretadas, mesmo sendo o mais forte, como éramos nós, que bem podíamos até correr a pelego aqueles camelos…, mas são cousas que os chefes é que sabem e mandam que se as agüente, porque é serviço...
Ora bem; havia já dois dias e duas noites que vivíamos neste apuro; arrinconados nalgum campestre dava-se um verdeio aos cavalos; os homens cochilavam em pé; nisto um bombeiro assobiava, outro respondia e o capitão, em voz baixa e rápida, mandava:
— Monta, gente!
E o Juca Picumã, que era o vaqueano, tomava a ponta e metia-nos por aquela enredada de galhos e cipós e lá íamos, mato dentro, roçando nos paus, afastando os espinhos e batendo a mosquitada, que nos carneava... Ninguém falava. A rapaziada era de dar e tomar, e —sem desfazer em vancê, que está presente —, eu era do fandango… e devo dizer, que nesse tempo, fui mondongo meio duro de pelar...
Dessa vereda o vaqueano foi pendendo para a esquerda; de repente batemos na barranca do arroio, e ele, sem dizer palavra meteu n’água o cavalo e, devagarzinho, fomos encordoando de trás e varando, de bolapé.
Seguimos um pedaço, sempre sobre a esquerda, e mui adiante tornamos a varar o arroio para o lado que tínhamos deixado. Tínhamos feito uma marcha em roda, que íamos agora fechar saindo na retaguarda do acampamento dos legalistas.
Num campestrezinho paramos; o capitão mandou apear rédea na mão, tudo pronto ao primeiro grito.
Depois acolherou-se com o Juca Picumã e meteram-se no mato e aí boquejaram um tempão.
Depois voltaram.
Então o capitão correu os olhos pelos rapazes e disse:
— Preciso de um, que toque viola...
Mas o Picumã xeretou logo:
— Tem aí esse pisa-flores, o furriel Blau...
— Esse gurizote?…
— Sim, senhor, esse; é cruza de calombo!...
E deu de rédea, com cara de sono. O capitão acompanhou-o, mandando que eu seguisse; e eu segui-o, quente de raiva, pelo pouco caso com que ele chamou-me —gurizote —. Se não fosse pelas divisas, eu dava-lhe o —gurizote!…
Fomos andando... parando... farejando... escutando... Em certa altura o Picumã, sem se voltar levantou o braço, de mão aberta e parou. O capitão parou, e eu.
O chiru disse, baixo:
— Está perto… ali!... E o churrasco é gordo!…
E levantava e mexia o nariz, tal e qual como um cachorro, rastreando...
E apeamos.
— Vamos botar um torniquete nos cavalos, para não relincharem…
Fizemos, com o fiel do rebenque.
— Tiramos as esporas, por causa dalguma enrediça... Tiramos.
— Bom; agora o capitão diz como há de ser o serviço…
O oficial encruzou os braços e assim esteve um pedaço, alinhavando a idéia; depois, como falando mais pra mim do que pra o outro, disse:
— Olha, furriel Blau, tu e o velho Picumã ides jogar o pelego numa arriscada... Ele que te escolheu pra companheiro é porque sabe que és homem... Há dois dias, como sabes, andamos nestes matos..., mas não é tanto pelo serviço militar, é mais por um vareio que quero dar... por minha conta... Ouve. A minha china fugiu-me, seduzida pelo comandante desta força... Vocês vão-se apresentar a ele, como desertados e que se querem passar... Ele é um espalha-brasas; ela é dançarina..., arranja jeito de rufar numa viola e abre o peito numas cantigas... Tendo farra estão eles como querem... E enquanto estiverem descuidados, eu caio-lhes em cima com a nossa gente. Agora... quando fechar o entrevero só quero que tu te botes ao comandante… e que lhe passes os maneadores... quero-o amarrado...; entendes? És capaz?… O Picumã ajuda... O resto… depois...
— Mas... não é pra defuntear o homem... amarrado?...
— Não! Acoquiná-lo, só...
— A tal piguancha, também… não é pra... lonquear?...
— Não! Desfeiteá-la, só...
— Então, vou. Mas quem fala é o Picumã...; eu, nem mentindo digo que sou desertor...
— Estás te fazendo muito de manto de seda!... Cuidado!...
— Seu capitão é oficial… nada pega...; eu sou um pobre soldado que qualquer pode mandar jungir nas estacas...
Aí o Picumã meteu a colher.
— Seu capitão, o mocito não é sonso, não! Deixe estar, patrãozinho, tudo é comigo... vancê só tem é que atar o gagino..
Depois os dois se abriram e ainda estiveram de cochicho, rematando as suas tramas.
O capitão montou.
— Bueno!... Vejam o que fazem; eu vou buscar a gente, e, conforme chegar, carrego. Vocês devem-se arrinconar junto da carreta, para eu saber. Blau!... não cochiles: o ruivo não é trigo limpo!...
E desandou por entre as árvores.
Quando não se ouviu mais nada o chiru convidou.
— Vamos: nos apresentamos como passados, que já andamos entocados aqui há uns quantos dias. Deixe estar, que eu falo… estes caramurus são uns bolas... Vai ver como passamos o buçal...logo nos aceitam! Vamos! Ah! meta dentro da camisa uma cana de rédea... é para a maneia do homem... Os companheiros depois nos levam os mancarrões, a cabresto.
E metemos a cabeça no mato, ele adiante, a rumo do cheiro, dizia.
Andamos mais de seis quadras; nisto, o chiru pego a cantar umas copias, devagar, meio baixo, como quem anda muito descansado, de propósito para ir chamando o ouvido de algum bombeiro, se houvesse...
Ora… dito e feito! Com duas quadras mais, um vulto junto duma caneleira morruda, gritou, no sombreado das ramas:
— Quem vem lá!
— É de paz!
— Alto! Quem é?
— É gente pra força, patrício! Andamos campeando vocês desde já hoje...
— Há! Pra quê?
— Ora, pra quê... Pra escaramuçar os farrapos!... E queremos jurar bandeira com o ruivo...
— Ah! vancês conhecem o comandante?
— Ora... ora! Mangangá de ferrão brabo! Ora, se conheço... Então, seguimos?...
— Passem. Vão por aqui… até topar um sangradouro...; aí tem outra sentinela; diga que falou comigo, o Marcos...
— ‘Tá bom... Quando render, vá tomar um mate comigo!...
Fomos andando, até a sanga dita; aí topamos com a outra sentinela; o chiru nem esperou o grito,ele é que falou, ainda longe;
— Oh... sentinela!
— Quem vem lá?...
— Foi o Marcos que nos mandou; andávamos extraviados... ele nos conhece... vamos levar um aviso ao comandante... É dos farrapos que andavam ontem por aqui... foram corridos...
— Hã! Pois passem...
— Sim... Pois é... foram-se à ramada do Guedes... Com um couro na cola, os trompetas!... Tem ai cavalhada de refresco?
— Que nada! A reiunada está estransilhada... A gente a custo se mexia... E pra mal dos pecados ainda o comandante traz uma china milongueira, numa carreta toldada, que só serve pra atrapalhar a marcha... A china é lindaça... mas é o mesmo. .. sempre é um estorvo!...
Aqui o Picumã se acoc’rou, tirou uma ponta de trás da orelha e pediu-me:
— Dá cá os avios, parceiro...
E bateu fogo. Reparei que a respiração do chiru estava a modo entupida... Mas pegou outra vez:
— Ë... o Marcos disse-me que o comandante é mui rufião... -
— Ë mesmo; mal empregada, a cabocla; qualquer dia ele mete-lhe os pés… é o costume...
Ora!...
— É... assim, é pena... Vamos, parceiro. Até logo. Como é a sua graça?
— João Antônio, seu criado... E a sua, inda que mal pergunte?
— Juca, patrício... Juca no mais... Quando render, espero a sua pessoa para um amargo!...
— ‘Stá feito!... Vá em paz!...
E outra vez nos mexemos, agora sobre o acampamento dos legais. Começamos a ouvir o falaraz dos homens, assobios, risadas, picamento de lenha, uma rusga de cachorros.
Mais umas braças. Chegamos. No meio do campestre uma fogueira grande, rodeada de espetos onde o churrasco chiava, pingando o fartum da gordura; nas brasas, umas quantas chocolateiras, fervendo; armas dependuradas, botas secando, japonas abertas, e ponchos, nos galhos. Deitados nos pelegos, nas caronas, muitos soldados ressonavam; outros, em mangas de camisa, pitavam, mateavam.
Do lado da sombra uma carreta toldada. Num fueiro, pendurado, um porongo morrudo, tapado com um sabugo; vestidos de mulher, arejando, diziam logo o que aquilo era. Pertinho, outro fogão,também com churrasco, uma chaleira aquentando e uma panela cozinhando algum fervido... Uma fumaça mui azul, cerrava tudo, alastrando-se na calmaria da ressolana.
Dois cavalos à soga, e um outro, bem aperado, maneado, pastando.
Mal que desembocamos do mato vimos tudo… e tudo com jeito de acampamento relaxado.
O chiru foi andando como cancheiro, e eu, na cola dele. Nisto um sujeito, deitado nos arreios, gritou-nos:
— Che! Aspa-torta! Então isto aqui é quartel de farrapos?… não se dá satisfações a ninguém?...
— Foi o Marcos, que nos mandou...
— Que Marcos?
— O Marcos, que está de sentinela… e o João Antônio... sim, senhor, para falar com o comandante...
: — Isso é outro caso… O comandante está sesteando... Se quiserem, esperem ali, junto da caneta. Já comeram?
— Já, sim senhor.
— Pois então!... Vão!
E apontou.
Arrolhamo-nos na sombra da carreta, junto da roda, encostando a cabeça na maça. Eu estava como em cima de brasas… não era pra menos...
Cuna!... Se descobrissem, nos carneavam, vivos!...
O Picumã cochilava... mas estava alerta, porque às vezes eu bem via fuzilar o branco dos olhos, na racha das pálpebras, entre o sombreado das pestanas...
A milicada começou a retirar os churrascos, já prontos e foi-se arranchando em grupos, para comer.
Nisto, por cima de nós, dentro da carreta, ouvimos falar, e depois uma risada moça, e logo uma mulher desceu, barulhando anáguas.
O chiru, que estava com os braços encruzados por cima dos joelhos, quando sentiu a mulher, afundou a cabeça pra diante, escondendo a cara… e o chapéu ainda ficou imprensado entre a testa e a curva do braço... Então passou pela nossa frente a cabocla... viu um como dormindo e o outro, que era eu, mui derreado e bocó... E foi-se à panela, mirou-a, apertando os olhos pro via da fumaça e do mormaço do brasido, Por Deus e um patacão!... Era um chinocão de agalhas!... Seiúda, enquartada, de boas cores, olhos terneiros... e com uma trança macota, ondeada, negra, lustrosa, que caía meio desfeita, pelas costas, até o garrão!...
— Por que seria que este diabo largou o meu capitão, para se acolherar com este tal ruivo?...
Isto de chinas e gatos... quem amimar sai arranhado... Talvez por este ser ruivo… talvez por farromeiro... por causa dalgum cavalo que ela gabou e ele regalou-lhe… e até… até por enfarada do outro... Ora vão lá saber!...
Nisto a piguancha alçou a panela e voltou pra carreta.
O chiru então, com a cara de lado, soprou-me de leve:
— Ela não se arpistou quando me viu?...
— Não... nem nos benzeu com um olhado... É uma cabocla enfestada!...
— Cale a boca... Apronte-se que o fandango não tarda.
— Eu preferia bailar com a morena...
— Aqueles dois do mate convidado não vêm mais....
— Os sentinelas?
— Sim; com certeza o capitão enxugou-os... Está me palpitando que a gente está desabando aí...
Palavras não eram ditas, que saiu do mato um milico, pondo a alma pela boca, e balançando, de cansaço e medo, mascou a nova:
— Os farrapos! Os farrapos! Mataram o João Antô!…
Estrondeou um tiro… zuniu uma bala... um legal virou, pataleando.
E pipoqueou a fuzilaria em cima da camelada!
Eu, pulei logo para o recavém da carreta, para me botar ao ruivo; mas antes de chegar já ele tinha descido... e se foi ao cavalo, que montou de pulo e mesmo sem freio e maneado, tapeando-o no mais, tocou picada fora.
E berrou à gente:
— Pra o rincão! Pra o rincão!
E com a folha da espada tocou o flete, que pelo visto era mestre naquelas arrancadas.
Mesmo assim eu ia ver se segurava o homem, mas o chiru gritou-me:
— Deixe! Deixe! Agora é tarde!…
Naturalmente de dentro da carreta a china viu o entrevero, e que o negócio estava malparado; e pulou pra fora, pra disparar e ganhar o mato. Mas quando pisou o pé em terra, a mão do Juca Picumã fechou-me o braço, como uma garra de tamanduá...
A cabocla não estava tão perdida de susto, porque ainda deu um safanão forte e gritou, braba:
— Larga, desgraçado!...
E olhou, entonada... mas conheceu o chiru e ficou abichornada, pateta...
— O tata! O tata!...
— Cachorra!... Laço, é o que tu mereces!...
— Me largue, tata!...
— Primeiro hei de cair-te de relho... pra não seres a vergonha da minha cara...
Neste instante, fulo de raiva, o nosso capitão manoteou-a pelo outro braço.
— Ah! mencê... perdão!... Nunca mais!... Eu... Eu...
— Eu é que vou dar-te sesteadas com o ruivo, guincha desgraçada!
E furioso, piscando os olhos, com as veias da testa inchadas, largou o braço da morena mas agarrou-lhe os cabelos, a trança quase desmanchada, fechando na mão duas voltas, agarrou curto, entre os ombros, pertinho da nuca.., e puxou pra trás a cabeça da cabocla..., com a outra mão pelou a faca, afiada, faiscando e procurou o pescoço da falsa...
Chegou a riscar… riscar, só, porque o chiru velho, o Juca Picumã, foi mais ligeiro: mandou-lhe o facão, de ponta, bandeando-o de lado a lado, pela altura do coracão!…
— Isso não!... é minha filha! disse.
O capitão revirou os olhos e deu um suspiro rouco… depois respirou forte, espirrou uma espumarada de sangue e afrouxou os joelhos... e logo caiu, pesado, com uma mão apertada, sem largar a faca, com a outra mão apertada, sem largar a trança...
E a china, assim presa; rodou por cima dele, lambuzando-se na sangueira que golfava pelo rasgão do talho, que bufava na respiração do morrente…
Vendo isso, o Picumã quis soltar a piguancha e forçou abrir a mão do capitão: qual! era um torniquete de ferro; tironeou... nada! Então, sem perder tempo, com o mesmo facão matador cortou a trança, rente, entre a mão do morto e a cabeça da viva... Foi — ra… raaac! — e a china viu-se solta, mas sura da trança, tosada, tosquiada, como égua xucra que se cerdeia a talhos brutos, ponta abaixo, ponta acima...
E mal que sentiu-se livre sacudiu a cabeça azonzada, relanceou os olhos assombrados, arrepanhou as anáguas e disparou mato dentro, como uma anta...
— Cachorra!... vai-te!... rugiu o chiru, limpando o ferro na manga da japona. E olhando o corpo do capitão, cuspiu-lhe em cima, resmungando:
— Pois é... seduziu... e agora queria degolar... E mui triste, pra mim:
— Vancê vai dar parte de mim?
— Esta é a Rosa, a tua filha?
— Sim, senhor, que eu criei com tanto zelo!...
E mais não pudemos dizer, porque o entrevero rondou para o nosso lado.. . e tivemos que fazer pela vida!... No meio do berzabum o Picumã ainda achou jeito de atirar uns quantos tições pra dentro da carreta... e daí a pouco o fogo lavorava forte naquele ninho de amores A la fresca!... que ninho!...
Alguém gritou: o capitão ‘stá morto!... Vamos embora!...
Um de a cavalo atravessou-o no lombilho e fomos retirando, tiroteando sempre.
Mas a trança não ia mais na mão do morto.
Passaram-se uns três meses largos; em muita correria andamos, surpresas, tiroteios, combates sérios.
Um dia um estancieiro regalou-me um pingo tordilho, pequenitate, mas mui mimoso. Quando eu ia sentar-lhe as garras, apareceu-me o Picumã, sempre esfrangalhado e com cara de sono e disseme, desembrulhando um pano sujo:
— Vim trazer-lhe um presente; é um trançado feito por mim; e há de ficar mui bem no tordilho, porque é preto...
E ajeitou na cabeça do cavalo um buçalete e cabresto preto, de cabelo, trançado na perfeição.
Nunca passou-me pela idéia cousa nenhuma a respeito...
O meu esquadrão marchou para a fronteira; depois andamos de Herodes para Pilatos, até que no combate das Tunas... fomos topar com os antigos companheiros de divisão. Brigamos muito, nesse dia. Aí ganhei as minhas batatas de sargento.
Não sei como ele soube, mas de noute um fulano procurou-me dizendo que o soldado Juca Picumã, um chiru velho, que estava muito ferido, pedia para eu não deixá-lo morrer sem vê-lo.
Lá fui. Estava o chiru deitado nas caronas e todo reatado de panos, pela cabeça, nas costelas, nas pernas.
O coitado gemia surdo, de boca fechada; e às vezes cuspia preto...
Quando me viu, à luz de uma candeia de barro fresco, quis mexer os ossos e não pôde...
— Então, Picumã... homem afloxa o garrão?...
E ele falou tremendo na voz:
— Estou… como um crivo... Eram oito... em cima... de mim... só pude... estrompar... cinco!...
Vancê... ainda… tem... aquele buçalete?...
— Tenho sim; meio estragado, mas tu ainda hás de compô-lo, não é?...
Não... eu queria… eu queria… lhe... lhe pedir... ele, outra vez... pra... pra mim...
— Pois sim, dou-te! Amanhã trago-te.
— E do... do cabelo da Rosa... a trança... lembra-se?...
Levantei-me, como se levasse um pregaço no costilhar... O buçalete era feito do cabelo da china?!... E aquele chiru de alma crua... E quando firmei a vista no índio, ele arregalou os olhos, teve uma ronqueira gargalejada e finou-se, nuns esticões...
Nessa mesma madrugada fui mandado num piquete de reconhecimento, de forma que não soube onde nem como foi enterrado o Picumã, porque o meu desejo era atirar-lhe pra cova aquele presente agourento...
Agourento… agourento não digo, porque afinal enquanto usei aquele buçalete nunca fui ferido.., e ganhei de uma a quatro divisas...
Tem é que dobrei a prenda, reatei-a com um tento e soquei-a pro fundo da maleta, até ver...
Até que um dia, como lhe disse, soube que a Rosa morreu e então... ah!... já lhe disse também:
atirei para a cova da china os cabelos daquela trança... doutro jeito, é verdade…  
mas sempre os mesmos!...
                                              
    
                                                                                                   J. Simões Lopes Neto
 
 
 
Espero que gostem desse, esse é um que me gusta bastante ! Forte abraço, e até maiss !

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

J. Simões Lopes Neto !

Hoje vou postar um causo muito famoso, chamado "Trezentas Onças" ..

                                                               


                                                        Trezentas Onças


Eu tropeava, nesse tempo. Duma feita que viajava de escoteiro, com a guaiaca empanzinada de onças de ouro, vim varar aqui neste mesmo passo, por me ficar mais perto da estância da Coronilha, onde devia pousar.

Parece que foi ontem! ... Era fevereiro; eu vinha abombado da troteada.

— Olhe, ali, na restinga, à sombra daquela mesma reboleira de mato que está nos vendo, na beira do passo, desencilhei; e estendido nos pelegos, a cabeça no lombilho, com o chapéu sobre os olhos, fiz uma sesteada morruda.

Despertando, ouvindo o ruído manso da água tão limpa e tão fresca rolando sobre o pedregulho, tive ganas de me banhar; até para quebrar a lombeira... e fui-me à água que nem capincho!

Debaixo da barranca havia um fundão onde mergulhei umas quantas vezes; e sempre puxei umas braçadas, poucas, porque não tinha cancha para um bom nado.

E solito e no silêncio, tornei a vestir-me, encilhei o zaino e montei. Daquela vereda andei como três léguas, chegando à estância cedo ainda, obra assim de braça e meia de sol.

— Ah! . .. esqueci de dizer-lhe que andava comigo um cachorro brasino, um cusco mui esperto e bom vigia. Era das crianças, mas às vezes dava-lhe para acompanhar-me, e depois de sair a porteira, nem por nada fazia cara-volta, a não ser comigo. E nas viagens dormia sempre ao meu lado, sobre a ponta da carona, na cabeceira dos arreios.

Por sinal que uma noite...

Mas isso é outra cousa: vamos ao caso.

Durante a troteada bem reparei que volta e meia o cusco parava-se na estrada e latia e corria pra trás, e olhava-me, olhava-me e latia de novo e troteava um pouco sobre o rastro; — parecia que o bichinho estava me chamando! ... Mas como eu ia, ele tornava a alcançar-me, para daí a pouco recomeçar.
— Pois, amigo! Não lhe conto nada! Quando botei o pé em terra na ramada da estância, ao tempo que dava as — boas tardes! — ao dono da casa, agüentei um tirão seco no coração... não senti na cintura o peso da guaiaca!

Tinha perdido trezentas onças de ouro que levava, para pagamento de gados que ia levantar.

E logo passou-me pelos olhos um clarão de cegar, depois uns coriscos tirante a roxo... depois tudo me ficou cinzento, para escuro...

Eu era mui pobre — e ainda hoje, é como vancê sabe... —; estava começando a vida, e o dinheiro era do meu patrão, um charqueador, sujeito de contas mui limpas e brabo como uma manga de pedras...

Assim, de meio assombrado me fui repondo quando ouvi que indagavam:

— Então patrício? Está doente?

— Obrigado! Não senhor, respondi, não é doença; é que sucedeu-me uma desgraça: perdi uma dinheirama do meu patrão...

— A la fresca!...

— É verdade... antes morresse, que isto! Que vai ele pensar agora de mim!...

— É uma dos diabos, é... mas; não se acoquine, homem!

Nisto o cusco brasino deu uns pulos ao focinho do cavalo, como querendo lambê-lo, e logo correu para a estrada, aos latidos. E olhava-me, e vinha e ia, e tornava a latir...

Ah!... E num repente lembrei-me bem de tudo. Parecia que estava vendo o lugar da sesteada, o banho, a arrumação das roupas nuns galhos de sarandi, e, em cima de uma pedra, a guaiaca e por cima dela o cinto das armas, e até uma ponta de cigarro de que tirei uma última tragada, antes de entrar na água, e que deixei espetada num espinho, ainda fumegando, soltando uma fitinha de fumaça azul, que subia, fininha e direita, no ar sem vento...; tudo, vi tudo.

Estava lá, na beirada do passo, a guaiaca. E o remédio era um só: tocar a meia rédea, antes que outros andantes passassem.

Num vu estava a cavalo; e mal isto, o cachorrito pegou a retouçar, numa alegria, ganindo — Deus me perdoe! — que até parecia fala!

E dei de rédea, dobrando o cotovelo do cercado.

Ali logo frenteei com uma comitiva de tropeiros, com grande cavalhada por diante, e que por certo vinha tomar pouso na estância. Na cruzada nos tocamos todos na aba do sombreiro; uns quantos vinham de balandrau enfiado. Sempre me deu uma coraçonada para fazer umas perguntas... mas engoli a língua.

Amaguei o corpo e, penicando de esporas, toquei a galope largo.

O cachorrinho ia ganiçando, ao lado, na sombra do cavalo, já mui comprida.

A estrada estendia-se deserta; à esquerda, os campos desdobravamse a perder de vista, serenos, verdes, clareados pela luz macia do sol morrente, manchados de pontas de gado que iam se arrolhando nos paradouros da noite; à direita, o sol; muito baixo, vermelho-dourado, entrando em massa de nuvens de beiradas luminosas.

Nos atoleiros, secos, nem um quero-quero: uma que outra perdiz, sorrateira, piava de manso por entre os pastos maduros; e longe, entre o resto da luz que fugia de um lado e a noite que vinha, peneirada, do outro, alvejava a brancura de um joão-grande, voando, sereno, quase sem mover as asas, como uma despedida triste, em que a gente também não sacode os braços...

Foi caindo uma aragem fresca; e um silêncio grande, em tudo.

O zaino era um pingaço de lei; e o cachorrinho, agora sossegado, meio de banda, de língua de fora e de rabo em pé, troteava miúdo e ligeiro dentro da polvadeira rasteira que as patas do flete levantavam.

E entrou o sol; ficou nas alturas um clarão afogueado, como de incêndio num pajonal; depois, o lusco-fusco; depois, cerrou a noite escura; depois, no céu, só estrelas... só estrelas...

O zaino atirava o freio e gemia no compasso do galope, comendo caminho. Bem por cima da minha cabeça as Três-Marias, tão bonitas, tão vivas, tão alinhadas, pareciam me acompanhar... lembrei-me dos meus filhinhos, que as estavam vendo, talvez; lembrei-me da minha mãe, do meu pai, que também as viram, quando eram crianças e que já as conheceram pelo seu nome de Marias, as Três-Marias. Amigo! Vancê é moço, passa a sua vida rindo...; Deus o conserve!... sem saber nunca como é pesada a tristeza dos campos quando o coração pena!...

— Há que tempos eu não chorava!... Pois me vieram lágrimas..., devagarinho, como gateando, subiram... tremiam sobre as pestanas, luziam um tempinho... e ainda quentes, no arranco do galope lá caíam elas na polvadeira da estrada, como um pingo d'água perdido, que nem mosca nem formiga daria com ele! ...

Por entre as minhas lágrimas, como um sol cortando um chuvisqueiro, passou-me na lembrança a toada dum verso lá dos meus pagos:

Quem canta refresca a alma,

Cantar adoça o sofrer;

Quem canta zomba da morte:

Cantar ajuda a viver! ...

Mas que cantar podia eu! ...

O zaino respirou forte e sentou e sentou, trocando a orelha, farejando no escuro: o bagual tinha reconhecido o lugar, estava no passo.

Senti o cachorrinho respirando, como assoleado. Apeei-me.

Não bulia uma folha; o silêncio, nas sombras do arvoredo, metia respeito... que medo não, que não entra em peito de gaúcho!

Embaixo, o rumor da água pipocando sobre o pedregulho; vagalumes retouçando no escuro. Desci, dei com o lugar onde havia estado; tenteei os galhos do sarandi; achei a pedra onde tinha posto a guaiaca e as armas; corri as mãos por todos os lados, mais pra lá, mais pra cá...; nada! nada!...

Então, senti frio dentro da alma... o meu patrão ia dizer que eu o havia roubado!... roubado!... Pois então eu ia lá perder as onças!... Qual! Ladrão, ladrão, é que era! ...

E logo uma tenção ruim entrou-me nos miolos: eu devia matar-me, para não sofrer a vergonha daquela suposição. É; era o que eu devia fazer: matar-me... e já, aqui mesmo!

Tirei a pistola do cinto; amartilhei o gatilho... benzi-me, e encostei no ouvido o cano, grosso e frio, carregado de bala. ..

— Ah! patrício! Deus existe! ...

No refilão daquele tormento, olhei para diante e vi... as Três-Marias luzindo na água... o cusco encarapitado na pedra, ao meu lado, estava me lambendo a mão... e logo, logo, o zaino relinchou lá em cima, na barranca do riacho, ao mesmíssimo tempo que a cantoria alegre de um grilo retinia ali perto, num oco de pau!... — Patrício! não me avexo duma heresia; mas era Deus que estava no luzimento daquelas estrelas, era Ele que mandava aqueles bichos brutos arredarem de mim a má tenção...

O cachorrinho tão fiel lembrou-me a amizade da minha gente; o meu cavalo lembrou-me a liberdade, o trabalho, e aquele grilo cantador trouxe a esperança.. .

Eh-pucha! patrício, eu sou mui rude... a gente vê caras, não vê corações...; pois o meu, dentro do peito, naquela hora, estava como um espinilho ao sol, num descampado, no pino do meio-dia: era luz de Deus por todos os lados!...

E já todo no meu sossego de homem, meti a pistola no cinto. Fechei um baio, bati o isqueiro e comecei a pitar.

E fui pensando. Tinha, por minha culpa, exclusivamente por minha culpa, tinha perdido as trezentas onças, uma fortuna para mim. Não sabia como explicar o sucedido, comigo, acostumado a bem cuidar das cousas. Agora... era vender o campito, a ponta de gado manso — tirando umas leiteiras para as crianças e a junta dos jaguanés lavradores — vender a tropilha dos colorados... e pronto! Isso havia de chegar, folgado; e caso mermasse a conta... enfim, havia de se ver o jeito a dar... Porém matar-se um homem, assim no mais... e chefe de família... isso, não!

E despacito vim subindo a barranca; assim que me sentiu, o zaino escarceou, mastigando o freio.

Desmaneei-o, apresilhei o cabresto; o pingo agarrou a volta e eu montei, aliviado.

O cusco escaramuçou, contente; a trote e galope voltei para a estância.

Ao dobrar a esquina do cercado enxerguei luz na casa; a cachorrada saiu logo, acuando. O zaino relinchou alegremente, sentindo os companheiros; do potreiro outros relinchos vieram.

Apeei-me no galpão, arrumei as garras e soltei o pingo, que se rebolcou, com ganas.

Então fui para dentro: na porta dei o — Louvado seja Jesus-Cristo; boa-noite! — e entrei, e comigo, rente, o cusco. Na sala do estancieiro havia uns quantos paisanos; era a comitiva que chegava quando eu saía; corria o amargo.

Em cima da mesa a chaleira, e ao lado dela, enroscada, como uma jararaca na ressolana, estava a minha guaiaca, barriguda, por certo com as trezentas onças dentro.

— Louvado seja Jesus-Cristo, patrício! Boa-noite! Entonces, que tal le foi o susto?...

E houve uma risada grande de gente boa.

Eu também fiquei-me rindo, olhando para a guaiaca e para o guaipeca, arrolhadito aos meus pés...



Espero que gostem, até amanhã espero ! Forte abraço !

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Que los cumpla feliz !

Hoje é aniversário do meu melhor amigo de todos os tempos ! O que nunca vai querer meu mal ou deixar de ser meu amigo, o que sempre independente da situação, contra mim ou não, vai estar sempre fazendo o melhor para mim, o que sempre está certo (é, infelizmente é verdade), o que dá os melhores conselhos, ao contrário de dizer o que eu sempre quero ouvir ! Sim, ele mesmo, meu papitoooo !!!
Vou mandar os parabéns de todos os jeitos que eu sei .....

"Parabéns pra você, 
nesta data querida, 
muitas felicidades,
muitos anos de vida !" (parabéns brasileiro)

"Parabéns, parabéns
Saúde e felicidade
Que tu colhas sempre todo dia
Paz e alegria na lavoura da amizade.


Que Deus velho te conceda
Com sua benevolência
Muitas, muitas campereadas
Na invernada da existência.


Parabéns, parabéns
Saúde e felicidade
Que tu colhas sempre todo dia
Paz e alegria na lavoura da amizade


E unidos no mesmo afeto
Te abraçamos neste dia
E para seguir a festança
Repetimos com alegria:


Parabéns, parabéns
Saúde e felicidade
Que tu colhas sempre todo dia
Paz e alegria na lavoura da amizade!"
(parabéns gaúcho)

"Happy birthday to you
happy birthday to you
happy birthday dear Papito
happy birthday to you!" (parabéns em inglês) 

"Parabéns à você
Nesta data querida
Muita Felicidade
Muitos anos de vida
À você, muito amor
E saúde também
Muita sorte e amigos
Parabéns, parabéns...."
(parabéns português)


Esse próximo o Helido Moncada mandou junto comigo :

"Que los cumpla feliz
que los cumpla feliz
que los cumpla Papito
que los cumpla feliz !" (parabéns argentino e uruguayo)

"Cumpleaños feliz
te deseamos a ti
feliz cumpleaños Papito
que los cumpla feliz!"
(parabéns chileno)

"Cumpleaños feliz
cumpleaños feliz
te deseamos Papito
cumpleaños feliz!"
(parabéns espanhol)


"Cumpleaños feliz
te deseamos a ti
cumpleaños Papito
cumpleaños feliz.

Que los cumpla feliz,

que los vuelva a cumplir,
que los siga cumpliendo,
Hasta el año 3000!" 
(parabéns colombiano)

 "Felicidades Papito
en tu día
que lo pases con sana alegría
muchos años de paz y armonía
felicidad, felicidad, felicidad!"
  (parabéns cubano)



"Tanti auguri a te,
tanti auguri a te,
tanti auguri a tutti,
tanti auguri per te.

Tanti auguri a papà,
tanti auguri a mammà,
tanti auguri a tutti,
sogni lieti così.

Tanti auguri,
tanti auguri,
tanti auguri,
tanti auguri.

Tanti auguri a te,
tanti auguri a te,
tanti auguri a tutti,
tanti auguri per te.

Tanti auguri a papà,
tanti auguri a mammà,
tanti auguri a tutti,
sogni lieti così.

Tanti auguri a te,
tanti auguri a te,
tanti auguri a tutti,
tanti auguri per te."
(parabéns em italiano)


Ai tche, acho que deu de cantar parabéns né ? 
Bueno, quero desejar tudo de bom pra ti nesse dia...

Parabéns ao meu paizão, que é meu amigão, que já é quarentão, e que merece um beijão e um abração nesse dia muito especialzão (eu sei que não existe hehe) !!!